PEDRA FORMOSA: ANTOLOGIA POÉTICA


PEDRA FORMOSA: O TEMPO E O LUGAR DA POESIA

Assistimos hoje a uma multiplicação e disseminação territorial de pequenas editoras, facilitada pelos grandes avanços das tecnologias da informação e da comunicação. Na primeira metade dos anos 90 do passado século, porém, a publicação de livros ainda se concentrava, quase que totalmente, em Lisboa e no Porto. Nesse contexto, quando, em 15 de Janeiro de 1993, um grupo de amigos decide fundar em Guimarães a editora Pedra Formosa, o seu gesto só podia qualificar-se de alto risco e do mais alto atrevimento. E anunciando-se que o projeto era todo ele voltado para a edição de poesia, então o risco e o atrevimento conformavam um caso de temeridade. Temeridade que, todavia, foi suficientemente fecunda para, ao longo de dez anos e de trinta e cinco títulos, possibilitar a publicação de poetas de renome, de revelar muitas primeiras obras, de divulgar vozes de tradições poéticas pouco conhecidas em Portugal, de alcançar um significativo reconhecimento no «campo literário» nacional. O referido grupo fundador, formado por poetas e artistas plásticos, possuía uma motivação simples: sendo leitores e escritores de poesia, queriam também ser seus editores, experimentando assim os vários modos do «fazer» (ou, se se preferir, do «servir») a poesia. O nome da editora foram encontrá-lo na designação que os arqueólogos dão às imponentes pedras, ricamente lavradas, que, na cultura castreja, constituíam a entrada dos edifícios de banhos lustrais (a crer na interpretação mais bela e, ao que parece, mais consensual da serventia de tais edifícios). A (talvez) mais majestosa dessas pedras formosas, proveniente da Citânia de Briteiros, pode ser apreciada no Museu da Cultura Castreja, da Sociedade Martins Sarmento, pelo que é, há muito, uma das imagens marcantes da identidade cultural de Guimarães. A linha editorial da Pedra Formosa desenhou-se, como clara opção inicial, mais pelo não do que pelo sim, ou seja, mais pela explicitação do que se queria evitar do que pela definição do que se pretendia acolher. Numa postura que foi obtendo nitidez de contornos ao longo dos anos, a negatividade traduziu-se desde o início na recusa do localismo estreito (desmontando as categorias de poeta local, de poesia local, de editora local, que não possuem qualquer real pertinência); na recusa de uma opção de escola, corrente ou linha estética (na convicção de que a poesia se faz de vozes bem diferenciadas, de sensibilidades múltiplas, de referências variadas); na recusa do primado do comércio (aguentando uma atitude de soberana indiferença face ao cálculo do que vende ou não vende bem); na recusa do descuido ou mau gosto gráfico (signo pelo qual, com frequência, é traído o provincianismo de bem intencionadas edições...). Em contraste, a positividade foi-se afirmando, desde o início: pela abertura da editora a todo o campo da poesia, da cultura e do livro, superando ao mesmo tempo quer o ferrete do localismo, quer a pretensão de desenraizamento; pelo acolhimento dado às mais diversificadas vozes poéticas; pelo elevado número de obras de estreia publicadas, proporcionando o espaço da editora a autores novos ou ainda mal conhecidos,bem como a expressões poéticas pouco divulgadas em Portugal (poesia chinesa e japonesa clássicas, poesia de poetas negros norte-americanos, poesia mística de Djalalal-Din Rûmî); pela aposta na qualidade gráfica e estética de cada livro editado, criando da Pedra Formosa uma imagem de referência. Ao falarmos da estética, interessa destacar o artista plástico Rui Oliveira que foi emprestando o seu talento às capas de vários dos livros publicados pela Pedra Formosa,Até Janeiro de 2003, perfazendo, portanto, dez exatos anos de existência, a editora Pedra Formosa construiu um projeto que não passou despercebido, quer no país, quer na cidade de Guimarães. Além dos numerosos autores publicados, do interesse e reconhecimento alcançado junto de autores e leitores, da boa receção manifestada pela crítica mais especializada,há que referir as inúmeras iniciativas em que a Pedra Formosa participou, como convidada ou organizadora, de norte ao sul do país: feiras do livro (de Lisboa, Porto, Braga e tantas mais), colóquios e debates, encontros de poesia, lançamentos de livros com a presença dos autores (na Casa das Artes, no Porto; na Casa Fernando Pessoa e na Livraria Assírioe Alvim, em Lisboa; na Casa Nogueira da Silva, em Braga; na Biblioteca Raul Brandão,em Guimarães, só para referir alguns lugares). Tudo isto constitui uma experiência muito rica, difícil de avaliar, que contribuiu, sem dúvida, para tornar mais próxima das pessoas a poesia que hoje se escreve em Portugal. De realçar a Associação Cultural e Recreativa Convívio, que foi, em termos de vivências e de atividades, a verdadeira casa da editora Pedra Formosa.Em 2013, vinte anos passados sobre o início deste projeto, e ainda no âmbito de Guimarães2012 Capital Europeia da Cultura, o Tempos Cruzados – Programa Associativo pretender e ativar estas memórias, esta experiência e este valor que pertencem com todo o mérito à Pedra Formosa e que, através dela, passaram a património da cidade onde nasceu Portugal.Esta antologia poética, organizada em dez andamentos, em correspondência aos anos de ação desta editora e com o compasso dado pelas ilustrações dos dez artistas que protagonizaram o projeto Memórias Coletivas Singulares, também integrado no Tempos Cruzados –Programa Associativo, é, acima de tudo uma homenagem aos atores publicados pela Pedra Formosa e todos aqueles que, ao longo de uma década, com entusiasmo e numa atitude declara resiliência, deram vida e voz à poesia, em Guimarães.

Guimarães, 8 de junho de 2013

Carlos Poças Falcão, Eduardo Meira e Helena AM Pereira

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EDIÇÃO Tempos Cruzados – Programa Associativo integrado na Programação Oficial Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura Associação Cultural e Recreativa Convívio Círculo de Arte e Recreio Associação de Folclore e Etnografia de Guimarães

DIRETOR DO TEMPOS CRUZADOS – PROGRAMA ASSOCIATIVO Eduardo Meira

COORDENAÇÃO EDITORIAL Helena AM Pereira

SELEÇÃO DE POEMAS Aurelino Costa Helena AM Pereira

SUPERVISÃO EDITORIAL Carlos Poças Falcão

TEXTO “PEDRA FORMOSA: O TEMPO E O LUGAR DA POESIA” Carlos Poças Falcão Eduardo Meira Helena AM Pereira

CURADORIA

Luís Ribeiro

ARTISTAS João Marçal, José Emílio Barbosa, José Almeida Pereira, Marco Mendes, Isabel Ribeiro, Luís Ribeiro, Nuno Florêncio, Jorge Fernandes,Mafalda Santos, Liliana Carvalho.

FOTOGRAFIA Miguel Oliveira

DESIGN Alexandra Xavier

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