SALA DE ESPERA


Projeto: Sala de Espera

Direção artística: Luís Ribeiro e José Emílio Barbosa

Ano: 2006

Apoio: Amélia Gomes Alves

Sala de Espera foi um projeto de curadoria independente realizado em Guimarães. Sobre o projeto, os curadores escreveram em 2006:

«O acto de esperar leva-nos ao desespero, à impaciência, à lentidão dos processos e principalmente à frustração. O artista espera. Expõe-se publicamente, mostra o seu trabalho e as suas ideias, sendo simultaneamente actor e espectador, podendo sentir-se cada vez mais isolado do meio, ou então ter a sorte de alguém o atender. O artista é um paciente à espera de ser atendido.Por tudo isto, sentimos necessidade de ajudar a descentralizar a Arte Contemporânea em Portugal. Um novo espaço abre-se para acolher Projectos Artísticos, atendendo, principalmente, artistas emergentes, não deixando de ser importante a conjugação de artistas com mais experiência do que outros, sem criar qualquer barreira entre eles. »

Exposições:

MAX FERNANDES

20 Janeiro a 11 Março

Max Fernandes

“2 cubos e um espelho”

Instalação com cerca de 500 kg de vidro e espelhos, três cubos em vidro, fio de nylon e dois cubos em sabão

2006

O espaço inaugurou com uma exposição de Max Fernandes intitulada “2 cubos e um espelho”. Este artista tem vindo a realizar diversas exposições coletivas e está ligado a vários projetos, como são os casos do “Espaço Provisório” e do “Laboratório das Artes. O trabalho deste artista prende-se, essencialmente, pelo uso da linguagem codificada, abarcando conceitos como os de “casa”, “espaço” e “campo”. No seu último trabalho “Intervenção sobre o mapa da cidade”, inserido na exposição ’16 salas, 1 espaço’, pode ver-se o uso de linguagem rigorosa, do GPS, através das coordenadas da Longitude e Latitude que marcam um local [neste caso foi o Laboratório das Artes]. Na ‘Sala de Espera’, Max Fernandes continua a reflectir sobre as mesmas questões, utilizando na montagem da exposição [instalação] materiais que vão desde o vídeo/som à própria ocupação do espaço, quer por fios de nylon, que nos transportam para a realidade das coordenadas latitude/longitude, quer pelo uso de espelhos e vidros que transformam o chão da sala numa espécie de ambiente “inconstante”, de permanentes projeções luminosas.

ANTÓNIO DE SOUSA

24 Março a 20 Maio

Gozo, Vídeo em loop transferido para DVD, cores, sonoro, 9` 29``, 2006

Art, Truth & Politics, Giz branco s/ parede, 2006

Rothko a partir do discurso proferido por Harold Pinter por ocasião do Nobel, Giz vermelho s/ parede, 2006

Déjeuner chez Darwin et Baumgarten, Mesa, árvore e objectos diversos, 2006

13.02.1966 Um destes dias recebi uma inesperada proposta para almoçar em casa do Sr. Darwin e do Sr. Baumgarten. Apesar de enigmática e insólita não seria possível recusá-la. A curiosidade era muito grande. Que fariam os dois na mesma casa? Porquê um almoço em casa de ambos? Porque quereriam falar comigo sabendo eles que não partilhamos as mesmas ideias? 12.03.2006 Poderei agora contar que falámos sobre normatividades, estéticas e outras. Falámos de competitividade e sobre os que, sendo mais fortes, são vencedores quer na natureza, na arte e na vida. Argumentámos, recorrendo às teorias de muitos dos nossos amigos, como o J. M. Keynes, o Marcuse, o C. Greenberg, o Foucault, o H. Foster, só para citar alguns. Relacionámos todas as questões, abordámos as mais diversas áreas do conhecimento de forma aberta e franca, com alguns momentos mais tensos, é certo, mas sem quaisquer ressentimentos ou preconceitos. Quanto aos detalhes e motivações da conversa não poderei falar, pois tal constituiria uma falta de cortesia para com quem tão gentilmente me tratou e me ofereceu, para além de um almoço, a sua sabedoria. O que motivou tão estranho convite ainda hoje não sei. Fiquei no entanto com a certeza de que, apesar da intensa troca de pensamentos, todos nós mantivemos as nossas ideias e convicções iniciais. António de Sousa Março 06

ISABEL CARVALHO

"Wanda"

2 Junho a 21 Julho

“Recentemente, perguntei às minhas amigas se tinham alguma fantasia sexual. Não criei expectativas em relação à resposta. Para mim esta era também a primeira vez que eu pensava seriamente sobre o assunto. Seria capaz de citar uma série de referências visuais e literárias, mas não de contar as minhas fantasias. Em reuniões de café, quando voltava a este tema, deparava-me com uma grande falta de imaginação (incluo-me neste grupo, citávamos clichés de cenas românticas de um filme ou ocorria-nos à memória situações anteriores vividas de tensão sexual), apercebi-me também que algumas das mulheres que interroguei nunca tinham pensado em fantasias e sentiam dificuldades em caracterizá-las e outras não viam qualquer sentido ou necessidade em verbalizar um desejo”. Esta é uma das citações que Isabel Carvalho escreveu no texto sobre a sua exposição na Sala de Espera, uma instalação que, no mínimo, deixa qualquer um pregado à leitura dos vários textos espalhados sobre as mesas rodeadas por bancos, cadeiras e sofás velhos. Ao fundo encostado à parede ‘mal pintada’ está uma série de espelhos, vidro e prata, organizados de uma forma que fazem lembrar um altar caseiro, não se sabe muito bem em memória de quê. Desta forma podemos ver-nos reflectidos, como que um confronto entre o que está exposto e pensamento do observador sobre o assunto, reflectindo todos os movimentos da sala como um caleidoscópio. Como tem sido habitual nas suas exposições (recorde-se as recentes exposições na Galeria Quadrado Azul ou na Galeria SMS), Isabel Carvalho explora a problemática da mulher, do corpo feminino, o sexo, o lesbianismo, e todas as questões sócio-culturais inerentes a estas problemáticas. A instalação intitulada “Wanda” é um momento intermédio de um projecto que teve início na criação de um Blog na Internet (http://kiki-koko.blogspot.com), uma forma de albergar fantasias sexuais de amigas e muitas que não o são da artista, assinando com um nome falso ou mesmo mensagens anónimas. Esta pareceu à artista a forma mais eficaz para conseguir construir uma rede, tendo sido publicadas em dois meses cerca de oitenta fantasias, criando assim um espaço dedicado ao imaginário feminino. Assim, “Wanda” é a parte da recolha de material que antecede ao objecto final, uma publicação física e outra em pdf. A primeira circulará por vários sítios e a segunda permanecerá alojada no blog. “A razão de chegar ao objecto-livro prende-se com a necessidade de devolver às mulheres este imaginário convidando-as a manter o exercício de fantasiar”, afirma a artista. A exposição pode ser vista até ao dia 21 de Julho, dia em que será lançada a publicação.

Luís Ribeiro, in Jornal Notícias de Guimarães, Junho 2006

XICO

"CRASH", Novembro a Dezembro 2006

Inaugurou no passado dia 17 de Novembro a primeira exposição individual de Xico, Guimarães 1979, intitulada “CRASH”. Licenciado em Artes Plásticas na ESAD – Caldas da Rainha, Xico apresenta uma instalação com diferentes peças que transcrevem o acidente e a organização automóvel como conceptualidade do irreversível. Logo à entrada deparamo-nos com duas obras formalmente distintas: “Parque de estacionamento” e “Luz ao fundo do túnel”. A primeira, constituída por uma série de estrados em madeira, forma uma torre sobreposta por um conjunto de carros feitos com caixas de papel. Só o desenho das rodas nos transporta para o universo automóvel, organizados de uma forma estática, como se de um local inacessível se tratasse. Na segunda, Xico construiu na parede um painel com plásticos pretos, com um túnel que parece nascer do próprio mural e, ao fundo, vemos um foco de luz forte em contraste com toda a escuridão, adquirindo características metafóricas de que ali está a salvação, a alternativa à quebra, à ruptura, ideia atribuída logo à partida pelo título da exposição. Assim, “CRASH” pretende uma destruição, um acidente, um confronto entre realidades opostas, onde uma se sobrepõe sempre à outra. É esse confronto que sentimos na peça “Speed Race”, uma pista de carros (daquelas que todos nós gostamos de ter em crianças) que vai de encontro a uma parede preta feita em tijolos. Aqui, o artista disponibiliza dois comandos onde os jogadores fazem uma breve corrida contra a parede, questionando o controlo ou a ausência dele, na medida em que a máquina adquire “vida própria”, conduzindo-nos sempre ao indesejado – o desastre. Em frente, um desenho descaracterizado apenas adquire forma pelos dois pneus pregados no desenho, onde a bidimensionalidade se transforma dando origem ao “Automóvel”, tema central da exposição. Ao fundo, a “Auto-estrada” feita com tijolos, borracha preta e dois espelhos colocados nas extremidades, prolongam a visão do observador numa linha do horizonte disforme, peça com maior impacto na exposição. Por último, Xico mostra-nos três vídeos filmados no próprio local de exposição – “Crash Test I, II e II”. Um apresenta uma corrida entre dois carros numa pista semelhante à da peça “Speed Race”; o outro apresenta a destruição de pequenos carros com um martelo; no outro o artista apenas deixa cair aleatoriamente diversos carros no chão, uma queda premeditada, um acidente com uma causa/efeito, que prolonga o lado visível de toda a instalação – “CRASH”. Para ver até ao próximo dia 23.

Luís Ribeiro, in Jornal Notícias de Guimarães, Junho 2006

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