ACCIDENTS ARE AN EXCEPTION

 

Título: Accidents are an exception

Autor: Luís Ribeiro

Curadoria: Nuno Centeno

Ano: 2008

Local: Galeria Reflexus - Arte Contemporânea, Porto


Project for a new landscape
Madeira, cortiça e maquetes
46x30,5x38,5cm

Invisible Invadors
Fot. digital impressa a jacto de tinta
97x70cm, ed. 3

Accidents are an exception
Fot. digital impressa a jacto de tinta
97x60cm, ed. 3

My idea of Home
Poliestireno e pvc
170x67x10cm

Industrialization of forgetting
Fot. digital impressa a jacto de tinta
97x70cm, ed. 3

An accident looking for a place to happen
Fot. digital impressa a jacto de tinta
97x70cm, ed. 3

Did you see what happned?
Fot. digital impressa a jacto de tinta
70x97cm, ed. 3

Different ways to distract you
Stills do DVD
Mini DV transferido para DVD, 2'08'', cor, som

“A nossa necessidade de controlo é impossível de satisfazer”, in Catálogo da exposição “MV/C+V”, Luís Ribeiro, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães

A nossa necessidade de controlo é impossível de satisfazer*

 

A procura de segurança e protecção remonta aos tempos mais antigos da existência humana. Assim, avaliar o grau de sofisticação dos mecanismos e dispositivos utilizados pelo Homem ao longo do tempo para satisfazer essas duas necessidades básicas, pode servir como um dos mais significativos indicadores do seu estado civilizacional. Parece-me claro que se tem confundido com demasiada frequência o uso de dispositivos com vista à satisfação da nossa necessidade de segurança com o abuso de utilização de mecanismos com vista ao controlo social.

Neste sentido, ganha particular interesse o facto de Luís Ribeiro colocar no centro da reflexão do seu trabalho conceitos como a segurança, o controlo (ou falta dele) e o acidente. Este autor tem vindo a desenvolver um projecto onde questiona a percepção destes conceitos e a possibilidade da sua representação - isto é, mais do que direccionar a sua pesquisa para questões exclusivamente formais ou visuais, interessa-lhe concretizar obras que remetam para um leque variado de experiências e sensações.

No projecto “Accidents are an exception” Luís Ribeiro apresenta nove peças. A fotografia, o vídeo e modelos tridimensionais são as ferramentas operativas da sua reflexão.

Na série de fotografias, o autor apresenta-nos uma paisagem nebulosa, pouco promissora e até assustadora. Sente-se uma espécie de desespero, como se algo estivesse na eminência de acontecer, mas que ficou em suspenso. De uma forma eficaz e subtil, Ribeiro proporciona-nos uma experiência (ou sensação) de segurança: afasta-nos do perigo ao colocar-nos no papel de observador empenhado e não de participante activo de um cenário sombrio.

Directamente relacionado com a série de fotografias, Luís Ribeiro apresenta o vídeo “Different ways to distract you”. O vídeo e as fotografias formam um conjunto, ainda que totalmente distinto em termos de expressão visual e técnica. O que os une? A experiência que proporcionam. À semelhança das fotografias, também o vídeo nos confronta com uma ameaça da iminência do acontecer. Esta ameaça é reforçada pela dimensão sonora da peça que parece transportar-nos para outro nível da experiência, menos corpórea e mais evanescente. À semelhança das fotografias, também o vídeo nos coloca no seguro papel de observador, afastando-nos do centro da acção desestabilizadora.

Em “Tower”, o artista propõe uma experiência perceptiva do conceito de controlo social. Esta obra, como o próprio título deixa adivinhar, remete-nos para uma estrutura em forma de torre que facilmente associamos à ideia de panóptico. A funcionalidade dos panópticos, onde o poder surge de uma torre central a partir da qual os alvos são controlados pela disciplina e pela vigilância, funciona como uma metáfora da sociedade disciplinar preconizada por Michel Foucault.

“Project for a new landscape“ e “My idea of home” são talvez as propostas mais intimistas do projecto “Accidents are an exception”. O conceito de lar é o ponto de partida para a construção destas peças. Não se trata, no entanto, do conceito comum de lar, local de refúgio. O que Luís Ribeiro nos apresenta é uma ideia nostálgica desse conceito. É um sentimento particular: de constatação da impossíbilidade de atingir um estado ideal de segurança (ou de felicidade).

Neste projecto, Luís Ribeiro dá continuidade às propostas de reflexão que têm estado no cerne do seu trabalho. No entanto, estas propostas surgem-nos mais amadurecidas, mais solidificadas, com uma força que parece residir na sua capacidade de nos comover e de nos desassossegar.

Raquel Guerra

٭ O título deste texto tem por base o título do livro de Stig Dagerman – “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”

Referências bibliográficas:

- Foucault, Michel – Vigiar e Punir, trad. Raquel Ramalhete, Petrópolis: Editora Vozes, 2004

- Guerreiro, António - O Sublime ou o Destino da Arte, in catálogo da exposição Do Sublime, Lisboa: Sociedade Lisboa 94, 1994

- Lotringer, Sylvère, Virilio, Paul – The Accident of Art, trad. Michaesl Taormina, New York: Semiotext(e), 2005

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